(Nova Iorque, 9 de outubro de 2025) – Pecuaristas que exploram trabalho forçado e invadem terras indígenas estão impulsionando a destruição das florestas brasileiras, enquanto lucram com a falha de toda a indústria em estabelecer cadeias de suprimentos transparentes e sustentáveis, afirmou a Climate Rights International em um relatório divulgado hoje. O governo Lula reduziu o desmatamento, mas não tomou medidas cruciais disponíveis para fortalecer a rastreabilidade no setor pecuário.
O relatório de 135 páginas, intitulado “Antes que seja tarde: contendo o desmatamento e as violações de direitos impulsionados pela pecuária no Brasil”, constatou que grandes marcas globais de moda e calçados estão ligadas, por meio de suas cadeias de fornecimento de couro, a produtores brasileiros envolvidos em graves violações ambientais e de direitos humanos. A atual falta de rastreabilidade total no setor pecuário significa que o couro e a carne bovina brasileiros — com limitadas exceções — não podem ser considerados confiáveis como livres de desmatamento ilegal ou violações de direitos.
«O Brasil desenvolveu ferramentas poderosas de dados que, se devidamente integradas, poderiam contribuir significativamente para livrar o seu setor pecuário do desmatamento e do trabalho forçado que o sustenta», disse Daniel Wilkinson, assessor sênior de políticas da Climate Rights International. «O governo Lula e as lideranças do setor agora enfrentam uma escolha: usar essas ferramentas para tornar as cadeias produtivas transparentes e sustentáveis, ou permitir que práticas ilegais continuem empurrando o país em direção a um desastre ecológico.»
Embora as taxas de desmatamento tenham diminuído no Brasil durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, elas continuam perigosamente altas, impulsionadas principalmente pelo desmatamento para pastagem de gado. Cientistas alertam que a floresta amazônica está caminhando para um “ponto de não retorno” em que vastas áreas podem secar, liberando enormes quantidades de carbono na atmosfera, com consequências potencialmente catastróficas para os esforços globais de conter as mudanças climáticas.
Trabalho forçado
Fazendeiros responsáveis pelo desmatamento das florestas brasileiras frequentemente submetem seus funcionários a trabalho forçado e outras formas de exploração laboral severa. “Quando se encontra desmatamento ilegal, geralmente também encontramos trabalhadores em condições análogas à escravidão”, disse uma procuradora federal do trabalho à Climate Rights International.
Em um dos casos documentados no relatório, fiscais do trabalho resgataram cinco trabalhadores — incluindo um adolescentede 15 anos — de uma fazenda localizada a mais de 200 quilómetros da cidade mais próxima. Os trabalhadores não tinham qualquer meio de comunicação com o mundo exterior nem possibilidade de deixar o local. Um trabalhador resgatado de outra fazenda contou à Climate Rights International que os empregados não recebiam salários, trabalhavam jornadas exaustivas, dormiam sob uma lona e bebiam água que acreditavam estar poluída, suportando esses maus-tratos em silêncio por medo dos proprietários, que consideravam “pessoas perigosas”.
Invasões de Terras indígenas
O desmatamento causado pela pecuária muitas vezes envolve invasões de territórios indígenas por fazendeiros que querem utilizar essas terras para o pasto do gado. Dois casos documentados no relatório envolvem fazendeiros que criam gado ilegalmente no Território Indígena Krikati, no estado do Maranhão. Desde 2017, invasores desmataram mais de 13 quilômetros quadrados dentro do território para abrir pastagens e assentamentos, isolando a comunidade de suas áreas tradicionais de pesca e caça. Membros da comunidade disseram à Climate Rights International que têm medo de circular pelas suas terras ancestrais devido a ameaças e atos recorrentes de intimidação. «Costumávamos viver da pesca e da caça», disse o chefe Maurício Krikati. «Hoje, quando vamos caçar, só tem gado, criação de gado, pasto.»
Risco de contaminação nas cadeias de abastecimento globais
Uma investigação conduzida em parceria com a Repórter Brasil documentou dez casos recentes em que fazendas de gado envolvidas em desmatamento, abusos trabalhistas e/ou invasões de territórios indígenas entraram nas cadeias de suprimento dos principais frigoríficos brasileiros. Alguns desses fazendeiros vendiam gado diretamente aos frigoríficos, enquanto a maioria era fornecedora indireta, transferindo gado para fazendas intermediárias que, por sua vez, vendiam aos frigoríficos. Esses frigoríficos, por sua vez, abastecem curtumes operados pela Durlicouros, JBS, Marfrig, Mastrotto, Minerva ou Viposa.
Uma investigação realizada pelo Stand.earth Research Group a pedido da Climate Rights International identificou 24 marcas internacionais ligadas, através das suas cadeias de fornecimento de 2023 e 2024, a curtumes operados por uma ou mais dessas seis empresas. Entre elas estão marcas de calçados e roupas esportivas, como Adidas, Asics, Converse, New Balance, Nike, Puma, Reebok, Rockport, The North Face e Vans, bem como marcas de moda e vestuário, incluindo Calvin Klein, Clarks, Coach, ECCO, H&M, Hugo Boss, Kate Spade, Kompanero, Lacoste, M&S, Michael Kors, Ted Baker, Timberland e Tommy Hilfiger. (Essas ligações podem ser vistas em aqui.)
Uma análise realizada pela Climate Rights International de mais de 40 publicações de organizações da sociedade civil e jornalistas encontrou mais de 340 casos relatados que ligam as cadeias de fornecimento dos principais exportadores brasileiros de carne bovina e couro a produtores de gado envolvidos em desmatamento ilegal e/ou violações de direitos humanos.
Promessas Vazias das Empresas
O Brasil desenvolveu ferramentas de dados que permitem monitorar se fazendas individuais estão cumprindo as principais leis de proteção ao meio ambiente, aos trabalhadores e às comunidades indígenas. Também desenvolveu uma ferramenta, o Guia de Trânsito Animal (GTA), que rastreia os movimentos do gado para fins sanitários. O que o país ainda não possui, entretanto, é um mecanismo que integre essas ferramentas de forma e em escala capazes de determinar se as cadeias de fornecimento estão livres de fazendas irregulares.
Embora alguns frigoríficos e curtumes tenham melhorado a supervisão de seus fornecedores diretos, dezenas de milhares de fornecedores indiretos continuam sem monitoramento. Várias empresas anunciaram planos para desenvolver novos sistemas de rastreamento para resolver essa lacuna, mas esses planos dependem do compartilhamento voluntário de dados do GTA por parte dos fornecedores em todos os níveis — algo que os especialistas em pecuária consultados pela Climate Rights International consideram altamente improvável.
“Não há dúvida de que os frigoríficos brasileiros podem e devem fazer um trabalho melhor no monitoramento de suas cadeias de suprimentos com as ferramentas que já possuem”, afirmou Wilkinson. “Mas, mais importante, eles devem trabalhar com o governo para criar a ferramenta essencial que ainda falta: um mecanismo que possa realmente rastrear e monitorar todo o setor pecuário.”
O caminho a Seguir: um Mecanismo Nacional de Rastreabilidade e Monitoramento
Vários estados brasileiros desenvolveram recentemente mecanismos próprios de rastreabilidade e monitoramento. No entanto, sem um sistema nacional, esses esforços correm o risco de fragmentar o setor pecuário, com cadeias de suprimento mais limpas surgindo em alguns estados para vender a mercados que exigem produtos livres de desmatamento, enquanto o desmatamento e os abusos relacionados continuam sem controle em outros estados que vendem para mercados sem tais exigências.
O governo federal é a única entidade com acesso a todos os dados necessários para uma rastreabilidade eficaz em escala nacional. Ao integrar o sistema GTA com as bases de dados existentes de monitoramento de conformidade, a administração Lula poderia criar um mecanismo capaz de rastrear a movimentação do gado e identificar fazendas irregulares em todo o país. Segundo autoridades e especialistas brasileiros, esse mecanismo poderia ser implementado em poucos meses e se tornaria uma ferramenta decisiva para conter o desmatamento e as violações de direitos no setor pecuário.
Entre os principais beneficiários da rastreabilidade e monitoramento em todo o setor estariam a maioria dos pecuaristas que cumprem a lei e enfrentam concorrência desleal de outros que cometem crimes ambientais e violações de direitos humanos, reduzindo os seus próprios custos e aumentando os riscos regulatórios e de mercado para todo o setor. Além disso, a destruição das florestas brasileiras por produtores irregulares está acelerando impactos ecológicos que podem ter consequências catastróficas não apenas para os pecuaristas que agem dentro da lei, mas também para a população brasileira, a região e o planeta.
Um mecanismo nacional de rastreabilidade e monitoramento também ajudaria as exportações brasileiras a cumprir as regulamentações existentes e as que estão em desenvolvimento em mercados-chave, incluindo os Estados Unidos, onde a Seção 307 da Lei Tarifária de 1930 proíbe a importação de produtos feitos com trabalho forçado, e a União Europeia, onde os novos regulamentos sobre Trabalho Forçado e Desmatamento restringirão produtos associados a trabalho forçado e desmatamento. Sem melhorias significativas na rastreabilidade e no monitoramento em todo o setor pecuário brasileiro, será difícil que suas exportações atendam a esses requisitos.
“Os requisitos de compras éticas na União Europeia, nos Estados Unidos e em outros lugares devem servir de incentivo para uma devida diligência mais rigorosa que beneficie os produtores que cumprem a lei no Brasil”, disse Wilkinson. “Mas é fundamental que os Estados Unidos, em particular, apliquem sua lei de forma justa e baseada em princípios — e não como pretexto para impor políticas comerciais ou tarifas punitivas e politicamente motivadas .”
Papel das marcas globais de moda e calçados
Aproximadamente 80% do couro brasileiro é exportado, e grande parte chega a marcas internacionais de moda e calçados, que têm muito mais visibilidade pública e risco para o consumidor do que outras empresas ligadas às cadeias de suprimento da pecuária. Dada essa alta visibilidade, essas marcas estão em uma posição única para pressionar os exportadores brasileiros a adotarem uma devida diligência mais rigorosa e mobilizar apoio aos esforços brasileiros para fortalecer a rastreabilidade da cadeia de suprimento.
“As marcas de moda e calçado devem usar a sua influência pública sem precedentes para apoiar a criação de um mecanismo nacional de rastreabilidade e monitoramento no Brasil», afirma Wilkinson. «Tentar limpar apenas suas próprias cadeias de fornecimento no Brasil não será suficiente para evitar a crise mais ampla que o país e o mundo enfrentam.»
Image: Weliton Pires, courtesy of Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos Carmen Bascarán


