An aerial view of the Indonesia Weda Bay Industrial Park (IWIP), including captive coal plants and nickel smelting operations. Credit: Muhammad Fadli for CRI.
“Aqui, o gado é tratado melhor do que os trabalhadores.” – João, trabalhador resgatado
“Nós vivíamos da pesca e da caça. Hoje, quando vamos caçar, só encontramos gado, criação de gado, pasto. – Cacique Maurício Krikati
“Quando se encontra desmatamento ilegal, geralmente também encontramos trabalhadores em condições análogas à escravidão“ – Procuradora do trabalho
Há mais de uma década, o Brasil provou que poderia ser líder global em conservação florestal, reduzindo o desmatamento em 80%. Mas, após 2012, esse progresso se desfez e, em 2022, a taxa anual de perda florestal mais que dobrou. Embora medidas recentes do governo tenham novamente desacelerado o desmatamento, a posição do Brasil como líder ambiental permanece incerta, enquanto o país se prepara para sediar a COP30 em novembro. Os riscos — para o Brasil e para o planeta — não poderiam ser maiores.
O Brasil abriga cerca de 60% da floresta amazônica, a maior reserva terrestre de carbono do mundo. Apesar dos avanços recente, a destruição da Amazônia continua em um ritmo perigoso, levando-a ao “ponto de não retorno” sobre o qual os cientistas alertam há muito tempo, quando vastas áreas podem secar, causando estragos ecológicos e econômicos no Brasil e liberando enormes quantidades de carbono na atmosfera. Outros biomas florestais do país também estão em risco, em especial o Cerrado, uma vasta savana com reservas significativas de carbono, onde as taxas de desmatamento também permanecem perigosamente altas.
“Herdamos um trem em alta velocidade rumo a um precipício”, disse o atual presidente da agência federal brasileira de fiscalização ambiental à Climate Rights International no início deste ano. “Nós diminuímos a velocidade do trem, mas ainda estamos caminhando para o desastre.”
A capacidade do Brasil de reverter essa trajetória é limitada — segundo autoridades brasileiras de alto escalão consultadas pela Climate Rights International — em grande parte porque as agências responsáveis pela fiscalização das leis ambientais do país não conseguem competir com as forças econômicas que impulsionam o desmatamento. Os lucros obtidos com a produção de gado em terras desmatadas ilegalmente estão entre os principais fatores que impedem o progresso.
Por trás desses lucros, há uma realidade sombria: o desmatamento impulsionado pela pecuária em muitas partes do Brasil é alimentado por graves violações de direitos humanos, incluindo o uso de trabalho forçado e invasões de terras indígenas. Essas violações não são incidentais à destruição das florestas brasileiras. Ao manter os custos de mão de obra artificialmente baixos ou usurpar terras indígenas, fazendeiros envolvidos no desmatamento ilegal aumentam a probabilidade de que seus crimes ambientais se convertam em ganhos financeiros.
Salvar a Amazônia e outros biomas florestais do Brasil exigirá a alteração dessa equação econômica perversa. Uma das maneiras mais seguras de fazer isso, de acordo com autoridades brasileiras e ambientalistas, é impedir que as commodities ligadas ao desmatamento impulsionados pela pecuária e a abusos de direitos humanos tenham acesso a mercados lucrativos. Nos últimos anos, alguns exportadores brasileiros — e alguns de seus compradores internacionais — deram passos nesse sentido, mas seus esforços ficaram aquém do necessário.
Este relatório examina o papel dos abusos de direitos humanos no fomento do desmatamento causado pela pecuária no Brasil. Ele explica por que os esforços das empresas de carne bovina e couro para eliminar esses danos de suas cadeias de fornecimento têm sido inadequados e suas promessas de melhorar pouco convincentes. Além disso, descreve como o governo brasileiro poderia facilitar e exigir uma devida diligência mais eficaz — e uma produção mais sustentável — em todo o setor pecuário.
Hoje, o Brasil dispõe das ferramentas necessárias para tornar suas cadeias de fornecimento de gado mais transparentes e sustentáveis. Autoridades governamentais e líderes do setor devem escolher entre utilizá-las de forma eficaz ou permitir que práticas abusivas e insustentáveis no setor pecuário continuem levando o país ao desastre ecológico.
Os fazendeiros que desmatam as florestas brasileiras frequentemente submetem seus empregados a trabalho forçado e outras formas graves de exploração laboral— referidas na legislação brasileira como “condições análogas à escravidão”. Os trabalhadores são atraídos para áreas remotas da floresta com a promessa de empregos decentes e, em vez disso, se veem trabalhando longas jornadas em condições duras e muitas vezes perigosas. Sobrecarregados e mal remunerados, eles são impedidos de deixar o trabalho por meio de coerção econômica, ameaças de violência e pelas enormes distâncias que teriam que percorrer a pé para escapar. Desde 1995, os auditores-fiscais do trabalho já resgataram mais de 17 mil pessoas dessas condições em fazendas de gado — com grande parte desses casos concentrados nas regiões da floresta Amazônica, onde o desmatamento é mais intenso e persistente.
Este relatório destaca casos recentes de trabalhadores resgatados que ilustram o problema. Em um deles, auditores-fiscais do trabalho resgataram cinco trabalhadores — incluindo um adolescente de 15 anos — de uma fazenda em São Félix do Xingu, no Pará, a mais de 200 quilômetros da cidade mais próxima. Os trabalhadores viviam sob precárias lonas plásticas, sem saneamento, e operavam motosserras sem equipamentos de proteção. Sua única fonte de água para beber e se banhar era um riacho visivelmente sujo, também usado por gado e animais selvagens. Os trabalhadores não tinham como se comunicar com o mundo externo nem sair por conta própria. Durante o resgate, os trabalhadores entrevistados pelos auditores insistiram em permanecer anônimos, temendo retaliação do fazendeiro caso falassem abertamente.
Em outro caso, no Pará, auditores-fiscais do trabalho resgataram dois homens de uma fazenda, localizada a quase 70 quilômetros da cidade mais próxima, onde viviam em um prédio inacabado, com chão de terra batida e sem banheiro, armazenando e bebendo água em galões de agrotóxicos reutilizados que traziam claramente o rótulo “NÃO REUTILIZAR ESTA EMBALAGEM”. O trabalho deles consistia em aplicar pesticidas tóxicos, conhecidos coloquialmente em português como “Mata-tudo”, sem treinamento de segurança ou equipamento de proteção.
Um trabalhador que havia sido resgatado recentemente de uma fazenda de gado disse à Climate Rights International que os proprietários da propriedade tinham reputação de serem “pessoas perigosas” com ligações a um grupo de “matadores” que atuava em um município vizinho. Ele e seus colegas sabiam que estavam sendo maltratados — trabalhando excessivamente sem receber salário, dormindo sob uma lona e bebendo água que acreditavam estar poluída —, mas permaneceram em silêncio sobre sua situação por medo de perderem a vida.
O desmatamento causado pela pecuária também implica ataques aos direitos dos povos indígenas em muitas partes do país. Os territórios indígenas estão frequentemente entre as barreiras mais eficazes contra a perda florestal no Brasil, mas há muito tempo enfrentam invasões de forasteiros que buscam utilizar suas terras, muitas vezes como pastagens para o gado. Em 2020, invasores tentaram reivindicar mais de 120 mil quilômetros quadrados de terras indígenas em todo o Brasil — uma área quatro vezes maior que a Suíça. Essas invasões não apenas destroem ecossistemas, mas também enfraquecem a autonomia das comunidades indígenas, expondo-as à violência, a ameaças e à perda de seus meios de subsistência tradicionais.
O Território Indígena Krikati, no estado do Maranhão, é um dos que foram alvo dessas invasões. Em uma visita ao território em maio de 2025, a Climate Rights International observou grandes extensões de pastagens e florestas recém-derrubadas dentro das áreas invadidas. Desde 2017, invasores desmataram mais de 1.300 hectares para pastagens e assentamentos permanentes, isolando a comunidade das áreas de pesca e caça que sustentavam suas famílias por gerações.
“Nós vivíamos da pesca e da caça”, disse o cacique Maurício Krikati à Climate Rights International. “Hoje, quando vamos caçar, só encontramos gado, criação de gado, pasto.” Ele e outros membros da comunidade disseram que o desmatamento secou iguarapés e rios que eram tradicionalmente importantes áreas de pesca, ao mesmo tempo em que destruiu locais usados para coleta e extrativismo. Agora, muitas vezes, eles têm medo de se deslocar pelas suas terras ancestrais devido às repetidas ameaças e atos de intimidação. “Para a gente entrar [em algumas dessas áreas], temos que cortar um cadeado pra entrar, e eles fala pra a gente que, si corta… se entram uma bala”, contou o cacique Maurício.
Este relatório traça as ligações entre o desmatamento, a exploração do trabalho e a invasão de terras indígenas no setor pecuário brasileiro e as cadeias de fornecimento das principais marcas globais de moda e calçados que atuam na Europa, nos Estados Unidos e em outros mercados internacionais.
Uma investigação realizada com a Repórter Brasil documentou dez casos recentes em que fazendas de gado envolvidas em desmatamento, exploração do trabalho ou invasões de territórios indígenas entraram nas cadeias de fornecimento dos principais frigoríficos brasileiros. Em oito desses casos, auditores-fiscais do trabalho constataram que os fazendeiros haviam submetidos seus trabalhadores a “condições análogas à escravidão”. Nos outros dois casos, os fiscais ambientais encontraram fazendeiros criando gado ilegalmente dentro de um território indígena. Em quatro dos dez casos, também havia evidências ligando os pecuaristas ao desmatamento ilegal.
Esses casos ilustram algumas das maneiras pelas quais o gado de produtores envolvidos em desmatamento ilegal ou violações de direitos humanos pode entrar nas cadeias de fornecimento dos frigoríficos brasileiros: alguns venderam seu gado diretamente, mas a maioria eram fornecedores indiretos, vendendo ou transferindo o gado para fazendas intermediárias que, por sua vez, vendiam para os frigoríficos.
Os casos também ilustram como esses produtores podem entrar nas cadeias de fornecimento de curtumes que exportam couro para o mundo inteiro — incluindo para os fornecedores de grandes marcas de moda e calçados. Os frigoríficos identificados nos dez casos fornecem couro cru para curtumes — sejam de suas próprias instalações ou de outras empresas — que exportam para mercados internacionais. Entre eles estão curtumes operados pela Durlicouros, JBS, Marfrig, Mastrotto, Minerva e Viposa.
Uma investigação realizada pelo Stand.earth Research Group em nome da Climate Rights International identificou 24 marcas internacionais ligadas, por meio de suas cadeias de fornecimento de 2023 e 2024, a curtumes operados por uma ou mais dessas seis empresas. Entre elas estão marcas de calçados e roupas esportivas, como Adidas, Asics, Converse, New Balance, Nike, Puma, Reebok, Rockport, The North Face e Vans, bem como marcas de moda e vestuário, incluindo Calvin Klein, Clarks, Coach, ECCO, H&M, Hugo Boss, Kate Spade, Kompanero, Lacoste, M&S, Michael Kors, Ted Baker, Timberland e Tommy Hilfiger.
As cadeias de suprimentos que conectam essas marcas aos curtumes podem ser visualizadas em um gráfico interativo preparado pelo Stand.earth Research Group, disponível aqui.
As conexões da cadeia de fornecimento documentadas pelo Stand.earth Research Group não provam que qualquer marca específica tenha utilizado couro de um curtume determinado ou couro produzido nas fazendas implicadas nesses casos. No entanto, elas demonstram que as cadeias de fornecimento dessas marcas incluem produtores envolvidos em graves danos ambientais e abusos de direitos humanos. Algumas das marcas estão tentando cumprir sua responsabilidade internacional de detectar e mitigar abusos ambientais e de direitos humanos em suas cadeias de fornecimento, rastreando a origem do couro até sua fonte ou proibindo o uso de couro proveniente do Brasil. Ainda sim, a complexidade das cadeias de fornecimento globais de couro e a falta de rastreabilidade total do gado no Brasil tornam o risco de contaminação quase impossível de eliminar.
Os dez casos documentados neste relatório não são casos isolados. Uma análise realizada pela Climate Rights International de mais de 40 relatórios de organizações da sociedade civil e jornalistas encontrou mais de 340 casos reportados na última década, ligando as cadeias de fornecimento dos principais exportadores brasileiros de carne bovina e couro a pecuaristas implicados em desmatamento ilegal e/ou violações de direitos humanos. (Veja o Apêndice A para uma lista desses relatórios.) Isso inclui mais de 280 casos envolvendo desmatamento ilegal, mais de 50 casos envolvendo trabalho forçado e/ou outras formas de exploração laboral grave e mais de 50 casos envolvendo invasões de terras indígenas.
Além disso, entrevistas realizadas pela Climate Rights International com dezenas de especialistas brasileiros — incluindo autoridades governamentais de alto escalão, representantes da indústria pecuária, líderes da sociedade civil e acadêmicos — confirmaram que os casos refletem uma falha sistemática do setor pecuário brasileiro, bem como dos compradores internacionais de suas exportações, em garantir que as cadeias de fornecimento estejam livres de desmatamento ilegal e abusos.
O Brasil tem feito avanços importantes no enfrentamento dos problemas interligados ao desmatamento e dos abusos no setor pecuário. O país possui leis rigorosas que restringem a destruição florestal e proíbem o trabalho forçado e as invasões de terras indígenas. Também desenvolveu ferramentas de dados que permitem que atores em toda a cadeia de fornecimento da pecuária — e além dela — avaliem se uma determinada fazenda está cumprindo essas leis.
Paralelamente, o Brasil desenvolveu uma ferramenta poderosa para identificar quais fazendas integram quais cadeias de fornecimento — uma tarefa desafiadora em um setor pecuário tão vasto, complexo e fragmentado como o brasileiro, onde os animais normalmente passam por várias propriedades desde o nascimento até o abate. Essa ferramenta é o Guia de Trânsito Animal (GTA). Criada originalmente para fins de controle sanitário, o GTA registra cada transação envolvendo a movimentação de gado entre fazendas e matadouros. Embora não rastreie animais individualmente, ele permite uma forma de rastreamento em “lotes” que mapeia o fluxo de transações pelas quais o gado passa por várias propriedades antes do abate.
O que o Brasil não fez, no entanto, foi estabelecer um sistema que integre as ferramentas de monitoramento de conformidade do país e os registros de transações do GTA de uma maneira — e em uma escala — capaz de determinar se as cadeias de abastecimento estão livres de propriedades em situação irregular. Como resultado, embora os principais frigoríficos e curtumes brasileiros tenham feito progressos na triagem de seus fornecedores diretos, seus fornecedores indiretos permanecem em grande parte sem monitoramento. Na prática, isso significa que, atualmente — com limitadas exceções —, a carne bovina e o couro brasileiros não podem ser considerados de forma confiável livres de desmatamento ilegal, trabalho forçado ou invasões de terras indígenas.
Essa falha de rastreabilidade é amplamente reconhecida no Brasil — inclusive pelos próprios líderes do setor. Uma grande barreira é que os registros do GTA geralmente são inacessíveis para além das partes envolvidas nas transações que registram. Embora alguns representantes da sociedade civil tenham pressionado o governo a torná-los públicos, autoridades e especialistas consultados pela Climate Rights International consideram improvável que isso aconteça em breve, citando obstáculos legais, políticos e econômicos.
Para resolver essa lacuna, surgiram iniciativas nos âmbitos privado, estadual e federal. Empresas anunciaram planos para criar seus próprios sistemas de rastreabilidade em lotes, alguns baseados em blockchain, a fim de estender o monitoramento mais profundamente em suas cadeias de fornecimento. Vários governos estaduais desenvolveram mecanismos de rastreabilidade e monitoramento em lotes que integram os registros do GTA com dados de monitoramento de conformidade (sem tornar os GTAs totalmente públicos). E, tanto em nível federal quanto estadual, os governos anunciaram planos para estabelecer sistemas de rastreamento de bovinos individuais, desde o nascimento até o abate.
Alguns desses esforços refletem a verdadeira criatividade e o compromisso de vários atores do governo, da sociedade civil e do setor privado no Brasil. Se conduzidos com cuidado e rigor, podem gerar avanços significativos no monitoramento das cadeias de fornecimento em alguns setores e regiões de produção específicos. No entanto, quando se trata de salvar a Amazônia e outros biomas florestais do Brasil, eles são — em poucas palavras — insuficientes e tardios.
As iniciativas das empresas são limitadas acima de tudo porque dependem da participação voluntária: os pecuaristas precisam concordar em compartilhar seus registros do GTA, algo que a maioria dos observadores considera altamente improvável. Como resultado, os sistemas privados inevitavelmente ficarão aquém de mapear toda a cadeia de fornecimento ou de garantir que ela esteja livre de desmatamento e abusos.
As iniciativas estaduais de rastreabilidade em lote são mais robustas, uma vez que os governos já têm acesso a todos os registros do GTA dentro de suas jurisdições e podem integrá-los aos dados de monitoramento de conformidade. Os mecanismos de rastreabilidade individual de gado — uma vez estabelecidos — poderiam ser ainda mais precisos e completos no mapeamento das cadeias de fornecimento dentro dos estados que os implementarem.
Mas todos esses esforços em nível estadual — também os empresariais, na medida em que funcionem — provavelmente segmentariam o setor pecuário: algumas empresas ou até estados inteiros desenvolveriam cadeias de fornecimento mais limpas, enquanto violações ambientais e de direitos humanos continuariam sem controle no restante. Essa segmentação do setor pecuário pouco contribuiria para frear a destruição das florestas do país ou para mitigar e prevenir os abusos que a alimentam.
Por fim, o plano do governo federal para a rastreabilidade individual do gado poderia, em teoria, oferecer a solução de longo prazo mais eficaz, uma vez que permitiria que cada animal fosse rastreado desde o nascimento até o abate. Mas seus prazos se estendem por muito tempo no futuro: a implementação nacional está prevista para 2032, um horizonte que alguns especialistas consideram irrealista — e que, mesmo que fosse alcançado, viria muito depois que as florestas brasileiras já tivessem sofrido danos irreversíveis. Além disso, até o momento, não foram anunciados planos para disponibilizar o sistema previsto para qualquer finalidade que não sejam conter surtos de doenças bovinas.
Felizmente, o Brasil já tem os ingredientes para uma solução, graças às múltiplas ferramentas de dados e rastreamento que já criou. Em dezembro de 2024, o governo federal lançou o programa Agro Brasil + Sustentável (AB+S), com uma plataforma online que consolida todos os dados de conformidade socioambiental das propriedades rurais em todo o país. E, ao contrário dos governos estaduais, o governo federal tem acesso a todos os registros do GTA gerados em todo o país. Ao combinar a função de avaliação de conformidade da plataforma AB+S com a função de rastreabilidade do sistema GTA, o governo federal poderia estabelecer um mecanismo nacional de rastreabilidade e rastreabilidade em lote que, de acordo com diversas autoridades brasileiras e especialistas do setor pecuário, poderia estar operacional em poucos meses.
A ideia de um mecanismo desse tipo em nível nacional conta com amplo apoio entre autoridades governamentais e defensores da sociedade civil engajados nesse tema. Também recebe apoio dentro de alguns setores da indústria pecuária brasileira. No entanto, até agora, a ideia tem sido amplamente frustrada pela resistência de outros setores, especialmente entre os produtores de gado.
Essa resistência é equivocada. Entre os principais beneficiários de tal sistema estariam a grande maioria dos pecuaristas brasileiros que cumprem as leis do país que protegem as florestas, os trabalhadores e os povos indígenas. Na ausência de mecanismos eficazes de rastreabilidade e monitoramento, esses pecuaristas enfrentam concorrência desleal de outros que praticam crimes ambientais e violações de direitos humanos, reduzindo seus custos de produção, ao mesmo tempo em que aumentam os riscos regulatórios e de mercado para todo o setor, contaminando as cadeias de fornecimento das quais todos participam. A longo prazo, a destruição das florestas do país por produtores inadimplentes está acelerando impactos ecológicos que podem ter consequências catastróficas para pecuaristas cumpridores da lei em todo o país — bem como para a população em geral do Brasil, da região e do mundo.
A produção de couro tem relevância particular para enfrentar os desafios ambientais e de direitos humanos que afetam o setor pecuário brasileiro. Embora em escala muito menor do que a carne bovina, as vendas de couro ainda geram bilhões em receita e são importantes para a lucratividade de alguns frigoríficos. Aproximadamente 80% dos couros brasileiros são exportados, grande parte destinada a marcas internacionais de moda e calçados que, muitas vezes, são mais atentas às questões de sustentabilidade do que os varejistas de carne bovina e têm visibilidade pública muito maior do que outras empresas ligadas às cadeias de fornecimento da pecuária. Dada essa visibilidade, as empresas de moda e calçados estão em uma posição única para moldar as percepções globais do setor pecuário brasileiro, conscientizar sobre a necessidade de cadeias de suprimentos mais sustentáveis e mobilizar apoio aos esforços no Brasil para alcançá-los.
É importante que essas empresas reconheçam que, na ausência de rastreabilidade em todo o setor, a capacidade dos curtumes e frigoríficos brasileiros de eliminar fazendas não conformes de suas cadeias de suprimentos — e a capacidade das empresas de rastrear completamente suas próprias cadeias de suprimentos de couro — permanecerá limitada. Além disso, mesmo que algumas empresas consigam efetivamente limpar suas próprias cadeias de suprimentos, sem melhorias em todo o setor, essa conquista provavelmente incentivará a segmentação do mercado de gado, contribuindo pouco para salvar as florestas do país ou impedir as violações de direitos humanos que alimentam sua destruição.
Para ajudar o Brasil a avançar de fato na erradicação desses problemas, as marcas de moda e calçados devem usar sua influência — individual e coletivamente — para apoiar a criação de um mecanismo nacional de rastreabilidade e monitoramento. Quando se trata do desmatamento impulsionado pela pecuária e dos abusos relacionados — especialmente na Amazônia — todas as cadeias de fornecimento devem ser sustentáveis, ou, em última instância, nenhuma será.
Recomendação ao Governo Federal do Brasil
Ferramentas nacionais de rastreabilidade e monitoramento da conformidade para o setor pecuário
Devida diligência obrigatória em direitos humanos
Recomendação ao Congresso Nacional do Brasil
Devida diligência obrigatória em direitos humanos
Recomendações aos frigoríficos no Brasil
Compromissos públicos
Incidência pública
Devida diligência
Transparência
Recomendações para curtumes no Brasil
Compromissos públicos
Incidência pública
Devida diligência
Transparência
Recomendações para empresas globais de moda e calçados
Compromissos públicos
Ação coletiva
Incidência pública
Devida diligência
Transparência
Foto da capa: Weliton Pires, cortesia do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos Carmen Bascarán